terça-feira, 1 de maio de 2012

Trecho de Clarice em "Uma Aprendizagem"








“E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderei ter você com meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida longa e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de sermos inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos que reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo nossa morte para mantermos nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa   é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.” (Trecho colhido de LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem).

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A imunidade serena dos grandes homens livres



Num tempo distante, Aurora acordou assustada, após um sonho perturbador e enigmático.
Naquela noite assombrosa, ela caminhava nos arredores de um bosque com folhas e flores perfumadas; o jardim era colorido e vivo, exalava um cheiro intenso de terra - vestia-se com uma saia rodada e agitava os lindos cabelos ao vento.
A moça trilhava contente seu caminho em meio às flores quando, de repente, deparou-se com um imenso pavão morto. No mesmo instante, Aurora sentiu uma dor enorme, equivalente àqueles sentimentos profundos da alma; percebeu que o lindo animal colorido - capaz de atrair olhares de admiração, encontrava-se sem vida e com os olhos revirados de terror. Tentou fazê-lo acordar, mas já se havia despedido do espírito que anima os corpos vivos. 
Apesar da tristeza, precisava caminhar para frente, não lhe era facultado parar.
Num outro trecho do bosque, novamente seu corpo gelou defronte a uma ovelha deitada na grama. Ao debruçar-se para alisá-la, teve a convicção de que o animal não mais vivia. As lágrimas salgadas e mornas inundaram seu rosto, a ponto de misturarem-se aos cabelos compridos e revoltos. A ovelha branca tinha os olhos vidrados de espanto, o corpo ainda quente indicava que a morte tinha acabado de lhe fazer morada.
Como podiam estar mortos esses animais tão amistosos? Mesmo no sonho, tinha de desvendar este enigma; para tanto, lançou-se atenta pelos caminhos do bosque - os olhos furtivos e vivazes indicavam vontade de revelação.
Após alguns passos, seu corpo paralisou num instante. Viu, a pouca distância, o bicho peçonhento que havia matado seus animais felizes. Como era furtiva e ardil aquela serpente vermelha e assassina! Escondia-se e rastejava, em silêncio, a fim de lançar-se sobre os seres desprevenidos. Como eram puros e inocentes aqueles bichos! A peçonhenta não encontrou neles qualquer desconfiança natural ou resistência corajosa.
Sem perder o instinto de veneno, a serpente jogou-se bruscamente sobre Aurora e a picou. Assustada, a moça falou com firmeza ao animal assassino: “não, animal medonho, não matarás o espírito que em mim habita! Tiveste êxito sobre a inocência natural, mas não o terás sobre a inocência valente!” Nisso Aurora cresceu em espirito, a ponto de fazer com que a serpente se recolhesse em sua pequenez ligeira. Com rapidez, a moça espremeu todo aquele veneno que outrora matara os animais de seus sonhos. 
Na manhã seguinte, o sol a despertou com seus raios quentes, parecia uma acolhida faceira após a noite tenebrosa. Estava suada e cansada, todavia, a mente havia encontrado uma qualidade inexprimível de calma e atenção.
Acordou, vestiu-se e foi caminhar. Ao chegar num local cheio de homens, deparou-se com a picada de alguns deles. Ela havia pressentido tal bote na noite anterior! Como sua mente estava desperta! No mesmo instante, sorriu interiormente e assim disse a si mesma: “estou imune a esse veneno, porque habito num mar de leveza e doçura, inalcançável por aqueles que rastejam furtivamente.”
Deduziu, desse instante, que o mal não poderia ser aniquilado com mais mal - isso espalharia enorme veneno sobre uma terra já exausta e quase morta; além disso, sentia a injustiça de pagar o mal com um bem. De seu âmago soprava a voz do absurdo: “a força do caráter de um homem reside também na habilidade em situar-se para além do bem e do mal, num lugar calmo onde repousa a imunidade perfeita dos grandes homens livres.”

sábado, 3 de dezembro de 2011

Para além da banalidade humana



Num dia de sol, Aurora encontrou um amigo de que gostava. Além de sorrisos, ele lhe confiou um papel dobrado com a seguinte frase: “só aquele que encara, despreocupadamente, as coisas com que se preocupam os homens, pode preocupar-se com as coisas que os homens encaram despreocupadamente.” 
Aurora interessava-se por certa filosofia prática oriental - justamente porque prática. A partir disso, a frase de Chang Chao repetia-se em sua mente, nas andanças pelo mundo. 
Percebia, assim, que a maioria dos homens devotava-se exclusivamente a objetos descartáveis e à vontade de poder. Com efeito, reconhecia o potencial sedutor do consumismo, capaz de banalizar os eventos cotidianos e de sufocar as almas mais delicadas. Nesse espaço de ar viciado, grande parte dos homens optava por uma existência atormentada e displicente - amparados por fantasias que os faziam fugir do vazio inexorável do viver. 
No silêncio de seus dias, Aurora pensava em novos valores que pudessem moldar o renascimento do homem. Imaginava, para tanto, um espaço de dignidades restauradas, onde os seres humanos pudessem distribuir sorrisos, caráter e cuidados.
A despeito das preocupações inúteis, que a humanidade insistia em nutrir, sabia da existência de almas sensíveis e delicadas, que não pertenciam a espaços que degradavam suas subjetividades; ao contrário, alguns seres escolhiam, por princípio, um viver mais harmônico à especificidade de suas naturezas pacíficas, e mais consentâneo à integridade do meio-ambiente e à diversidade humana.
Ao caminhar sempre para frente, Aurora nutria uma esperança silenciosa: viver num mundo em que a violência fosse a exceção, jamais a regra; em que as máscaras fossem usadas apenas nos carnavais, jamais na vida quotidiana; onde o cultivo do silêncio, do pensamento e das boas amizades pudesse despertar novas sensibilidades, suficientes a devolver a cada homem a potencialidade se tornar novamente humano.
Nesse espaço renovado e sensível, o valor do cuidado e a riqueza da simplicidade guiariam os gestos humanos. Talvez, assim, a humanidade pudesse aventurar-se rumo à magia e aos encantos de um viver radiante e incomum, desconhecido e plural – suficiente a traduzir a obra humana em uma magistral e significativa obra de arte.



domingo, 16 de outubro de 2011

O canto sedutor da sereia assassina


Caravaggio - The Fortune Teller


Em um de seus passeios pelo mundo, Aurora deparou-se com uma quiromante. 
A mulher lia as mãos e previa o futuro. Para tanto, vestia-se e perfumavam-se com elegância e distinção, os adornos que a enfeitavam tinham o poder de encantar e de seduzir, pois brilhavam tais como jóias cintilantes; o rosto possuía um mistério, que Aurora, de início, não conseguia decifrar.
Algumas vezes, a adivinha lhe perscrutava a alma num silencio tenebroso. Em outras, narrava historias milagrosas e contos fantasmagóricos. A adivinha especializava-se na arte de se fazer indispensável, cobria-se com o manto da ouvinte perfeita - era a feiticeira de todos os mundos, a conselheira dos seres, a curandeira dos males, a conhecedora suprema da verdade.
As crenças da adivinha baseavam-se na luta do bem contra o mal, ela se dizia a representante das “forças do bem”, capaz de lutar e de vencer as enigmáticas “forças do mal”. As falas da quiromante mantinham Aurora desconfiada e vigilante, pois não iria fazer parte do rebanho de crentes cegos que a adivinha cultivava. 
Num lampejo de sol, Aurora desvendou o mistério que se escondia por detrás dos olhos da adivinha: o propósito da terrível mulher consistia no roubo vil de almas distraídas. Naquele dia de clareira, os ventos sopraram fortes no céu e arrancaram a fantasia daquela desprezível mulher; as rajadas a desnudaram e o mundo conheceu o terror. Por debaixo dos panos ilustres, só se via imundice, feiura, nojeira. 
Aurora chocou-se ao constatar que a adivinha se alimentava de almas roubadas, ela comprava sombras humanas e as transformava em zumbis atormentados - homens escravos, desprovidos de vontade, vampirizados e sugados até a completa morte espiritual. 
A feiticeira assemelhava-se a uma madeira seca, sem vida nem viço. Para sobreviver, chupava o sangue de suas vítimas e as aniquilava em força e em vontade. O propósito da mulher mais feia entre as mulheres era o de formar um rebanho de escravos, capaz de destruir o “mal” do mundo e suficiente à construção de um planeta perfeito - com a aniquilação inequívoca do "mal".
Após ter acordado do sono profundo, que a sedou parcialmente, Aurora deu um pulo convicta de que as mentiras da adivinha precisavam ser reveladas. Ela não compactuaria com o silêncio dos hipócritas - que mantinha tantos adivinhos circulando impunemente pelos corredores do mundo.
A partir daquele instante, Aurora decidiu-se por seguir firme pela trilha da vida, com a convicção austera de que jamais se renderia ao canto sedutor das sereias assassinas; além disso, ela auxiliaria os andarilhos desenganados, a fim de que não se deixassem roubar pelos vilipendiadores sórdidos da existência humana.
Lembrou-se da pintura de Caravaggio e do aviso indispensável aos que caminham solitários: por debaixo do canto sedutor, esconde-se o bandido mais perigoso - o ladrão de almas inocentes.

domingo, 2 de outubro de 2011

Os palhaços coloridos divertem-se no picadeiro da existência


Aurora percebeu, certa vez, que o mundo se assemelhava a um circo. No picadeiro da vida, a maioria dos homens perambulava fantasiada e grotescamente pintada. Eles dançavam e se divertiam freneticamente, numa agitação colorida. As preocupações dos palhaços centravam-se em objetos descartáveis. Em verdade, "os enfeitados" maravilhavam-se com o poder e com a fama mais do que tudo. Assim, cacarejavam mentiras e fantasias em praça pública como estratégia de dominação sobre as plateias.
A surpresa maior, para Aurora, era a constatação de que os palhaços eram a regra nos corredores do mundo. Com efeito, agiam sempre em rebanho; isso porque, as ideias tortas que sustentavam só subsistiam quando ressoadas pelo seu bando de iguais. Todas as ações dos palhaços remetiam à servidão, à jaula, à mais cerrada gaiola mental.
Enquanto gritavam no palco, Aurora analisava seus rostos miseráveis e suas mãos aflitas. No fundo, tinham medo de que alguém os visse por debaixo da fantasia; a aparência doentia e a angústia profunda os envergonhava. Como estratégia de disfarce se valiam de máscaras, de gritos frenéticos e da vontade de poder. O aplauso de seus iguais os mantinham afastados da clareira e da vergonha
A feiura e o horror dos palhaços assustava Aurora diante de uma vida que insistia em não possuir sentido - ao contrário dos milhares de sentidos estúpidos que "os enfeitados" decoravam e pregavam. Num tempo de algazarra bestial, a moça inventava refúgios e espaços de fôlego para sobreviver em meio ao ar viciado de homens coloridos e iguais.
Aurora compreendia que não havia espaço para sensibilidades delicadas nesse campo de brutalidade e fantasia, pintado por palhaços. Daí que vivia em busca de homens livres e sensíveis, porquanto intuía que o curto espaço de vida não podia ser preenchido com leviandades. A moça leve não fazia coro ao canto dos contentes - ela se recusava a participar de uma vida medíocre, que matava e feria, sem qualquer pudor, quem não partilhasse das mesmas vestimentas.
Ao caminhar sempre para frente, nutria uma esperança silenciosa: o desejo pela emancipação da plateia. Desejava viver num mundo em que a violência fosse a exceção, jamais a regra; em que as máscaras fossem usadas apenas nos carnavais, jamais na vida quotidiana; onde o cultivo do silêncio, do pensamento e das boas amizades pudessem fazer nascer novas sensibilidades.
Não conseguia mais retornar, mesmo que tentasse; por isso se lançava, se jogava, quase que se atirava...


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A força inspiradora do soberano natural



Aurora encontrou nas franjas do mar o seu refúgio encantado -  a grandeza do enorme soberano misterioso a conduzia ao vazio de que necessitava para viver.
Nos dias em que o sol aparecia forte no céu, Aurora acordava bem cedo, seduzida pelo canto das ondas e pelos raios de sol. Daí que caminhava quieta até que seus pés tocassem a areia fofa e quente. Ao se encontrar defronte àquele gigante, costumava mergulhar num silêncio profundo que a fazia compreender a delicadeza dos momentos. 
O mar a ensinava a liberdade, porque não existiam barreiras que o enorme não havia despedaçado. Assim como o mar, Aurora recusava-se a não ser apenas ela mesma; atrevia-se a ultrapassar as fronteiras humanas mais rígidas, a fim de criar possibilidades sensíveis de existência.
A valentia das ondas, que não temiam sua rebeldia poderosa, a fazia compreender que era necessário se defrontar, era necessário se envolver. Aurora sentia a necessidade de se encontrar com as profundezas de si mesma e, para tanto, desenvolvia um corpo vigoroso e forte, suficiente para despedaçar todos os limites à liberdade da alma; “aquilo que não é forte não merece viver”, assim lhe falava o soberano natural. 
A força que conquistava - inspirada pelo gigante, a fazia destruir a mediocridade e as mentiras dos homens menores. Muitas vezes, Aurora precisava se lavar das imundices e das nojeiras de tantos homens que cruzavam o seu caminho. Para isso, se valia da pureza enorme do mar, que a limpava com águas e sal e a tornava novamente vazia, para renascer mais leve e mais livre. 
Aurora queria apenas defrontar-se com o potencial do vazio; as ondas arrastavam para longe todos os conceitos que a enchiam de peso inútil. Naquela grandeza, ela conseguia “cantar um galope fechando as feridas, que só cicatrizam na beira no mar.”

sábado, 30 de julho de 2011

Bela Cecília



O Livro da Solidão
Cecília Meireles
Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: “Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta…?”
Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: “Uma história de Napoleão.” Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio… Pode ser um passatempo…
Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo… E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.
Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.
Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.
Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém…
O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.
O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números…
O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.
E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas…
Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores…
A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.
E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.
Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.
Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.
(São Paulo, Folha da Manhã, 11 de julho 1948.)

sábado, 23 de julho de 2011

Kafka, este nietzschiano...



A partir de um certo ponto não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado. Kafka, traduzido por Silveira de Souza em “28 desaforismos”.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A riqueza do vazio: do deixar-se invadir







Como o vazio pode ser tão cheio; como o cheio consegue ser tão vazio? 
Ao assistir ao último filme de Woody Allen, “Meia Noite em Paris”, corre-se o risco de  se refletir sobre esse instigante paradoxo. 
No filme, havia a oposição entre dois arquétipos: o intuitivo (Gil) e o mental (Paul). Este último revelava uma pobreza gigantesca, em termos de experiências e de sonhos; tudo o que Paul possuía era roubado de outras almas ricas. Certamente, Paul poderia decorar todos os livros, mas jamais conseguiria alcançar aquele mundo afortunado em criatividade, desbravado por Gil em sua inocência lúdica.
A inocência gratuita de Gil remete à criança nietzschiana - lúdica e potencialmente criativa, porque vazia. 
Quão inocente consegue ser esse doce espírito encantado! 
Enquanto Paul decorava as biografias de Picasso para impressionar a plateia, Gil o encarnava, a ponto de deixar-se invadir pela alma de Picasso quando descrevia o animus do pintor ao rascunhar uma tela. 
A idiotice de Paul era equivalente à pobreza espiritual de Inez, a noiva de Gil. Curioso o quanto ambos conseguem traduzir a miséria humana de nosso tempo: um espaço de ar viciado - um verdadeiro campo de sufoco e extermínio de qualquer subjetividade com contornos mais sensíveis.
A despeito da quantidade de erudição de Paul e da imensa futilidade de Inez, a riqueza do espírito de Gil seduzia as almas delicadas e o fazia um dançarino risonho. Durante o filme, consegue-se flutuar pelas ruas mágicas daquela Paris sonhada por Gil, numa aventura lúdica ao passado, guiado pelas trilhas de Hemingway e de Gertrude Stein.
As almas nobres - de sensibilidade renovada, filiam-se a princípios interiores, criados a partir de uma intuição desperta e inocente. “Os leves” passeiam e se desviam; desviam-se da canalha, da hipocrisia, do engodo. Sabem que não pertencem à canalha, pois nasceram para dançar, flutuar e sorrir. 
Ao final, quando Gil passeia por Paris sob a chuva, percebe-se um homem embriagado e nutrido pela pureza do vazio que criou. Gil conquista a radiância solar dos grandes homens livres; a vontade de poder cedeu lugar à vontade de gerar um mundo novo, com os sussurros de Hemingway e a música de Cole Porter.
Somente um enorme vazio é capaz de se deixar preencher, de se deixar invadir…
A riqueza interior de certos homens é tão profunda, que faz resplandecer leveza e simplicidade ao mundo exterior. Dai que Hemingway pinta o maior dos sentidos: “o homem que começou a viver mais seriamente por dentro, começa a viver mais singelamente por fora.” 
Au revoir!


domingo, 19 de junho de 2011

Dostoiévski clareia as noites escuras



Do acúmulo de sensibilidade, da não degradação do sensível...
"E, tremendo pela sua felicidade, cheia de angústia e de nostalgia, compreendia finalmente que eu também a amava, e então a sua alma sentiu piedade do meu pobre amor. Porque quando somos infelizes ficamos mais aptos a compreender o sofrimento alheio; a nossa sensibilidade, assim, não se degrada, mas, pelo contrário, condensa-se e acumula-se…" (Dostoiévski, Fiódor. Noites Brancas)