segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A imunidade serena dos grandes homens livres



Num tempo distante, Aurora acordou assustada, após um sonho perturbador e enigmático.
Naquela noite assombrosa, ela caminhava nos arredores de um bosque com folhas e flores perfumadas; o jardim era colorido e vivo, exalava um cheiro intenso de terra - vestia-se com uma saia rodada e agitava os lindos cabelos ao vento.
A moça trilhava contente seu caminho em meio às flores quando, de repente, deparou-se com um imenso pavão morto. No mesmo instante, Aurora sentiu uma dor enorme, equivalente àqueles sentimentos profundos da alma; percebeu que o lindo animal colorido - capaz de atrair olhares de admiração, encontrava-se sem vida e com os olhos revirados de terror. Tentou fazê-lo acordar, mas já se havia despedido do espírito que anima os corpos vivos. 
Apesar da tristeza, precisava caminhar para frente, não lhe era facultado parar.
Num outro trecho do bosque, novamente seu corpo gelou defronte a uma ovelha deitada na grama. Ao debruçar-se para alisá-la, teve a convicção de que o animal não mais vivia. As lágrimas salgadas e mornas inundaram seu rosto, a ponto de misturarem-se aos cabelos compridos e revoltos. A ovelha branca tinha os olhos vidrados de espanto, o corpo ainda quente indicava que a morte tinha acabado de lhe fazer morada.
Como podiam estar mortos esses animais tão amistosos? Mesmo no sonho, tinha de desvendar este enigma; para tanto, lançou-se atenta pelos caminhos do bosque - os olhos furtivos e vivazes indicavam vontade de revelação.
Após alguns passos, seu corpo paralisou num instante. Viu, a pouca distância, o bicho peçonhento que havia matado seus animais felizes. Como era furtiva e ardil aquela serpente vermelha e assassina! Escondia-se e rastejava, em silêncio, a fim de lançar-se sobre os seres desprevenidos. Como eram puros e inocentes aqueles bichos! A peçonhenta não encontrou neles qualquer desconfiança natural ou resistência corajosa.
Sem perder o instinto de veneno, a serpente jogou-se bruscamente sobre Aurora e a picou. Assustada, a moça falou com firmeza ao animal assassino: “não, animal medonho, não matarás o espírito que em mim habita! Tiveste êxito sobre a inocência natural, mas não o terás sobre a inocência valente!” Nisso Aurora cresceu em espirito, a ponto de fazer com que a serpente se recolhesse em sua pequenez ligeira. Com rapidez, a moça espremeu todo aquele veneno que outrora matara os animais de seus sonhos. 
Na manhã seguinte, o sol a despertou com seus raios quentes, parecia uma acolhida faceira após a noite tenebrosa. Estava suada e cansada, todavia, a mente havia encontrado uma qualidade inexprimível de calma e atenção.
Acordou, vestiu-se e foi caminhar. Ao chegar num local cheio de homens, deparou-se com a picada de alguns deles. Ela havia pressentido tal bote na noite anterior! Como sua mente estava desperta! No mesmo instante, sorriu interiormente e assim disse a si mesma: “estou imune a esse veneno, porque habito num mar de leveza e doçura, inalcançável por aqueles que rastejam furtivamente.”
Deduziu, desse instante, que o mal não poderia ser aniquilado com mais mal - isso espalharia enorme veneno sobre uma terra já exausta e quase morta; além disso, sentia a injustiça de pagar o mal com um bem. De seu âmago soprava a voz do absurdo: “a força do caráter de um homem reside também na habilidade em situar-se para além do bem e do mal, num lugar calmo onde repousa a imunidade perfeita dos grandes homens livres.”

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